O moço da Janela 

01/03/2021

O MOÇO DA JANELA

Era a quarta vez naquele dia que Sabrina passava naquela rua e lá estava ele. Rosto cínico e olhar penetrante. Olhava-a como se quisesse despi-la. "Será que não tinha nada melhor para fazer do que ficar o dia todo estatelado naquela bendita janela? ". Sabrina se perguntava diariamente, e acabava sempre irritada ao lembrar que não só a rua como precisamente aquela casa, eram para ela passagens obrigatórias. Ela ia e voltava do trabalho ou a qualquer lugar que fosse e lá estava ele sempre de plantão com seu meio sorriso enigmático na janela.

Sentia emoções contraditórias. Ora ficava irritada ora satisfeita ao pensar nele, a quem havia apelidado de "o moço da janela". Com o tempo, acostumara-se a vê-lo como parte integrante dos enormes e antigos casarões daquela rua. Por várias vezes já havia imaginado aquela janela sem ele, ali debruçado, e não gostara da sensação. A rua ficaria tristemente vazia, perderia aquela graça e expectativa que a presença daquele homem de alguma forma lhe proporcionava.

Todos os dias enfrentava o mesmo ritual. Saía de casa às sete horas da manhã, já um pouco esgotada pelas tarefas domésticas exigidas pelos dois irmãos mais velhos que relutaram inicialmente em aceitar sua necessidade de trabalhar. "Não lhe damos tudo o que precisa? " Perguntaram em uníssono.

Na verdade, eles foram surpreendidos com o fato já consumado. Sabrina arranjou um emprego com a ajuda de uma amiga da igreja e, só os informou no primeiro dia de trabalho quando lhe perguntaram aonde ia tão cedo toda arrumada e perfumada.

Eram muito ciumentos, carinhosos e cuidadosos. Se sentiam responsáveis por sua segurança e sobrevivência na cidade grande onde sua mãe concordara que a levassem da pequena cidade onde viviam com a família para continuar os estudos e buscar outras perspectivas para sua vida.

Sabrina sempre fora determinada, gostava de estudar, fazer novos amigos e sonhava em trabalhar para ser independente financeiramente. Se sentia incomodada quando tinha que pedir aos irmãos dinheiro para todas as suas necessidades já que não podia contar com a ajuda da mãe que também recebia ajuda dos dois. Os irmãos saíram de sua pequena cidade decididos a vencer na vida e a tirar a família da situação de pobreza em que sempre viveram.