O Abacateiro 

01/04/2021

Escritora Izabella Hendrix

Quando eu nasci o abacateiro já estava lá. Da janela da minha casa se via aquela árvore grande, pomposa e que todo ano, fielmente, enchia seus galhos com abacate.

Os frutos sempre eram grandes e pesados. Pessoas do lote comiam, vizinhos da rua ganhavam, pessoas que moravam longe, quando vinham nos visitar, levavam abacate de presente.

Uma espécie de recompensa pela visita e de glória por termos em grande escala um fruto tão apreciado por todos.

O pé de abacate era uma ostentação.

O fruto servia para comer, passar na pele, hidratar o cabelo e desperdiçar.

Claro, tinha desperdício sim!

O pé era grande e dava muitos frutos, a ponto de não sabermos mais o que fazer com tanto abacate.

O abacateiro serviu também como trampolim, escada para subir na laje da minha casa, abrigo para dias de sol e calor, casinha para bonecas, estrutura de cabaninhas, esconderijo para casais e brigas de família para ver quem limparia a bagunça das folhas no chão.

Hoje o pé não existe mais. Teve que ser podado, pois as raízes envelheceram e ele não teve o cuidado merecido para permanecer de pé.

Mas ele existiu.

Fez parte da infância de muita gente e serviu para nossa, talvez única, ostentação perante os vizinhos.

E por que estou te contando do abacateiro?

Porque são lembranças como essas que enchem nosso coração de alento.

Todo mundo tem uma história para contar, um lugar para descrever, um pé de fruta para ostentar.

Todo mundo tem "causos", como se diz aqui em Minas.

Passar horas debaixo de um abacateiro, se abrigando em seus galhos, se escondendo do sol debaixo da sua sobra.

Ah que saudades.

De abacate eu não tenho saudade, pois quando meu pai se mudou e foi morar em outra casa adivinha o que tem lá?

Um pé de abacate, que ele ostenta e nos presenteia a cada visita.

Hoje eu moro em apartamento, mas se morasse em casa ou tivesse um sítio, eu juro que plantaria um abacateiro só para essa história nunca ter fim.