Janete Rosa da Fonseca

10/04/2020

Nascida no Rio Grande do Sul, é licenciada em Pedagogia com Especialização em Orientação Educacional e em Administração, Mestrado e Doutorado em Educação com Pós-Doutorado em Neurociência pela Fundação Universidade de Rio Grande (FURG). No ano de 2008, mudou-se para o Estado de Mato Grosso, onde residiu por 10 anos e passou a atuar como professora em Cursos de Pós-graduação Lato Sensu nos municípios de Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop. Foi docente dos Programas de Mestrado e Doutorado em Ciência da Educação da Universidade Nihon Gakko-Ung em Assunção, Paraguai. Atuou como professora convidada no Instituto Politécnico da Guarda em Portugal. Foi Coordenadora do Curso de Pedagogia e Diretora Acadêmica da Faculdade de Sorriso- FAIS/MT e Coordenadora do Curso de Pedagogia da Faculdade La Salle de Lucas do Rio Verde e atualmente é professora adjunta e Coordenadora do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campus de Aquidauana, cidade onde reside atualmente e desenvolve pesquisas sobre a Formação Interdisciplinar de Professores, através de grupos de estudos e projetos de extensão que envolvem arte, cultura, literatura e tecnologia. Faz parte também do grupo de pesquisadores do Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU/UNEMAT/UFMT).

ANTOLOGIA VOLUME 07

A MENINA TRISTE, SEM LAÇO DE FITA

         O ano era 1970, a casa simples na pequena cidade, abrigava um jovem casal e sua pequena filha de cinco anos de idade. O casamento fragilizado pelas inúmeras crises conjugais, já durava 11 anos, destes, 6 anos foram dedicados a tentativa de ver a família aumentar. Depois de muita espera, lograram êxito, mas a alegria da espera transformou-se em mais um problema na vida do jovem casal, não era um rebento, não era um varão, um garotão, era uma menina, de pele muito branca e grandes olhos castanhos, porém, uma menina. Voltemos a 1970, Jack, a menina de pele muito branca e grandes olhos castanhos, já com cinco anos, passa seus dias na pequena casa, buscando por algo que não sabe exatamente o que é, mas que sabe que lhe falta.

         Seus dias se resumem a uma grande e perversa solidão, ao lado da mãe, que igual a ela, vive tão só e reclusa. O pai, martirizado pela decepção que carrega desde o nascimento de sua única filha, não consegue se aproximar de Jack. O rádio com o a narração de um jogo de futebol, as ferramentas jogadas em um canto do pátio de terra, caprichosamente limpo aos domingos pelo pai, eram o limite da aproximação entre Jack e seu pai. Ou as vezes que, ao irromper em uma fúria que Jack, nunca entendeu o por que, o pai lhe ameaçava com o cinto, e sua mãe, nesses momentos, conseguia sair de seu mundo de tristeza e defender sua única filha, na verdade até hoje não se sabe do que mais, além das ameaças de castigo físico.

       Mas o tempo passou e Jack foi para a Escola, e como todos sabemos, a Escola é o local de socialização secundária, já que a socialização primária deve acontecer na família. Na família? Eram somente três pessoas que compunham a família de Jack, mas não existiam laços que promovessem nenhum tipo de socialização. Afinal, não era ela, não era Jack quem o pai esperava, ali não era seu lugar. Mas Jack descobriu que na Escola também não era seu lugar, na década de 70, se praticava bullyng, mas não se utilizada ainda o termo e Jack, já não era mais o bebê de pele muito clara e grandes olhos castanhos era uma menina magricela e feia, segundo a descrição de sua mãe, de cabelos maltratados e grandes olhos castanhos.

      A escola lhe impôs a mesma solidão e isolamento de sua casa. Mas lhe trouxe algumas descobertas, descobriu o que faltava, ou pelo menos parte do que lhe faltava. Em sua solidão costumava sonhar que era uma criança muito amada! Que todos a viam, sentavam e ouviam suas histórias. Que afagavam seus cabelos, e a defendiam daqueles que riam dela

          Mas estava sozinha, ninguém ouviu sua descoberta. Então voltou a mergulhar em sua solidão. E Jack cresceu e crescendo continuava a querer o que nunca teve, algumas coisas sabia o que era, outras não e por não saber o que era começou a substituir por coisas que não lhe faziam bem, ao contrário, trariam ainda mais dor. Não deveria fazer barulho, não deveria rir alto e nem falar durante as refeições, sempre lhe sentenciará o pai.

     O tempo passou, Jack tornou-se adulta, os livros a acolheram, encontrou amor em outras pessoas, mas, as tardes de domingo, o jogo de futebol narrado pelo rádio, a limpeza do pátio e a eterna sensação de que algo faltava, continuavam ali. Um mundo cinzento de mentiras e sucessivos erros na tentativa de não repetir a ninguém o que haviam imposto a ela no passado, desabou sobre Jack, teria seu pai finalmente razão? Seus questionamentos giravam sempre em torno de:

           Deveria realmente estar aqui? Seria realmente um erro seu nascimento?

     Rejeitada desde a sala de parto, em seu nascimento, vítima de bullyng da infância a adolescência, por toda a Escola, colegas e professores, haja vista que ninguém se furtava de deixar claro seu desprezo por Jack, finalmente, duas pílulas coloridas a entenderam, Jack ainda é triste, mas enfim criou laços. 

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