Escritora Simone de Sousa Naeldzold

11/06/2020

Graduada em Letras Português/Espanhol pela UFSC, 2001. Mestra em Letras pela UNEMAT/Sinop (2018); Servidora efetiva do Estado Mato Grosso desde 2008. Possui diversos textos científicos publicados. Membro da ASCL. Cadeira 33. Patrono: Santiago Villela Marques.  

1 - AL: Simone. Como foi o seu primeiro contato com a Literatura?

R: Simone: Meu primeiro contato com a Literatura deu-se quando eu estava cursando a segunda ou terceira série multisseriada na Escola Municipal Isolada Ponta da Custódia em Nazaré, Imaruí, Santa Catarina. Era uma Escola do e no Campo no interior do litoral catarinense. Por ser Escola do/no Campo, sempre recebíamos livros usados das Escolas Urbanas. Muitos já em adiantado estado de descomposição e faltando páginas. Mas era o que tínhamos. Eu fui alfabetizada na segunda série, em 1982. Líamos textos dos livros didáticos e, como faltavam páginas, terminávamos as poesias, os contos ou as crônicas sem conhecer os originais. A professora passava os textos no quadro e copiávamos. Assim conheci Cecília Meireles nestes anos de segunda, terceira e quarta séries. Retrato é a poesia dela que aprendi neste período. Tenho memórias bem nítidas dessa época. Essa Literatura aos pedaços mudou minha vida. Foi ali que decidi ser professora. Foi ali que decidi que queria sempre estudar.

2 - AL:Você escreve mais textos científicos e as principais diferenças entre esses textos e os literários estão no objetivo e no modo como são construídos. Como você faz para diferenciar os momentos que você está produzindo ambos os textos?

R: Simone: São tempos distintos, porém estão relacionados. Quando estou produzindo textos científicos, busco na publicação de outros autores informações que já foram publicizadas para aprofundar meu conhecimento. Na produção de contos, crônicas e poesias as ideias vêm. Às vezes fico refletindo sobre elas e amadurecendo-as. Enquanto não escrevo, elas não saem da cabeça, do pensamento. Escrever para mim funciona como a 'penseira' do Harry Potter.

3 - AL: Os textos não-literários contribuem com seus processos de construção de textos literários?

R: Simone: Sim. Enquanto estou estudando textos científicos, muitos conhecimentos vão se formando através das relações que fazemos com outros conhecimentos já construídos. Nossos letramentos ou multiletramentos estão sempre se realocando, se modificando. Quando leio, por exemplo, a crítica literária de Antonio Candido, de Bakhtin e de tantos outros sobre a Literatura, essas leituras também me influenciam. Quando se estuda a metaliteratura, quando se observa um crítico realizando uma análise literária de um conto, de uma poesia, de uma crônica, buscando cada detalhe, até mesmo o que o autor não vê, cada memória de palavra, cada verso, cada rima e esse vai destrinchando a poesia, o conto, a crônica é lindo demais. No início eu pensava se era tudo aquilo que existia no texto. Depois, realizando minhas próprias análises, penso que o trabalho da crítica é fundamental para o processo de escrita autoral. Cruz e Sousa não seria Cruz e Sousa sem a crítica, assim como muitos outros escritores. E esse processo de leitura da crítica provoca um amadurecimento maior na hora da escrita literária.

4 - AL:Fale-nos um pouco do seu trajeto científico e literário e de quando você começou a escrever os contos as poesias.

R: Simone: Neste período de 1983 e 1984 eu já rabiscava poesias. Em 1985 eu ia para Escola sem estar matriculada, pois só havia ensino até a quarta série. Eu estava com dez ou onze anos. Os textos que escrevi perderam-se pelos caminhos. Alguns tenho resgatado pela memória. Mas não á a mesma coisa. Meus pais não terminaram a quarta série. Quatro, de meus seis irmãos, também não. Duas irmãs e eu terminamos o Ensino Médio. Mas somente eu fiz Graduação, Especialização, Mestrado e agora, 2020, matriculada no Doutorado. A compreensão para quem saiu do interior e vive buscando um lugar ao sol é que não são situações fáceis. São lutas diárias. Possibilidades que se esvaem por falta de recursos financeiros. Além disso, há processos de construção de conhecimentos que parece pararam no tempo. Quando falei para uma de minhas irmãs, que terminou o Ensino Médio, que havia passado para o Doutorado, ela me perguntou se eu ia fazer medicina. Sempre gostei de escrever. Na faculdade de Letras, meus resumos eram maiores, às vezes, que o original. Não significa que eram melhores, longe disso. Mas que meu pensamento precisava e precisa de espaço para se desenvolver.

5 - AL: Como é o seu processo de escrita literária? Qual é a sua inspiração?

R: Simone: Eu amo o silêncio. É no silêncio que os pensamentos brotam, que as ideias eclodem e é dele que vem minha inspiração depois da leitura de um livro, de um processo de reflexão. Eu escrevo sem pensar, a priori, em gramática. Escrevo ideias, descrevo imagens, relatos, sentimentos, emoções. E gosto muito da minha vida hoje. Tenho segurança no meu esposo e nos meus filhos. Essa realidade, desde 2002, me permite escrever contos, crônicas e poesias com mais tranquilidade. Eu escrevo para tirar os pensamentos da cabeça. Eles querem sair. Se não escrevo, eles ficam ali martelando.

6 - AL: Você é professora, como você vê a Literatura hoje na sala de aula no dia a dia com adolescentes e jovens?

R: Simone: Sim. Sou professora concursada em Língua Espanhola na Rede Estadual de Educação de Mato Grosso. Atuo no Ensino Médio. E sou de opinião de que a Literatura deveria voltar a ser uma disciplina como fora outrora e não um conteúdo de Línguas Portuguesa, Inglesa, Espanhola. É perceptível conversar com um estudante que lê muito e com um que lê pouco. As ideias são distintas. O repertório linguístico também. A leitura promove, provoca mudanças nas nossas atitudes e, do meu ponto de vista, nos faz viver melhor. O estudante que lê muito, de modo geral, tem poucas dificuldades em quaisquer das 13 disciplinas que estuda no Ensino Médio. Não estou falando de conteúdo. Pois, às vezes, um ou outro conteúdo são mais complexos. Estou me referendo à construção de conhecimentos que só são possíveis através de relações entre outros conhecimentos existentes. É um aprendizado em espiral, como observa Jerome Bruner. Em 2018 trabalhei com estudantes do primeiro ano 'As linhas de Nazca' do Perú. Trabalhamos leitura, cultura, Literatura, sociedade, notícias, reportagens. Assistimos vídeos e produzimos textos e pesquisas diversas. Construímos conhecimentos. Então eu vejo que a Literatura está imbricada com a leitura, com o processo de construção de conhecimento dos nossos jovens e proporcionar a eles processos de aprendizagem são fundamentais para que possam ter base para construir novos conhecimentos. Como um processo de 'scaffolding'.

7 - AL: Qual o papel da Literatura na formação de adolescentes e jovens?

R: Simone: Eu vejo a Literatura como super, mega importante no processo de aprendizado de todos nós, nos adolescentes e jovens, mais ainda. Tanto os textos clássicos, como os modernos devem fazer parte da vida leitora dos estudantes, principalmente. Não há nada de errado em ler Harry Potter, As Crônicas de Nárnia ou Percy Jackson, Meios, Sósias, Versos e seus reversos, Antologia de Escritores Contemporâneos, O rio dos poetas. Assim como não há em ler Os assassinatos da Rua Morgue, O tempo e o vento, As mentiras que os homens contam, Navio negreiro, Broqueis, O cortiço, Memórias póstumas de Brás Cubas, Romeu e Julieta, Grande sertão: veredas ou Cem anos de solidão. São tempos diferentes. Maneiras de ver o mundo diferentes. Cada escritor traduz o seu tempo, o seu processo de construção e os traços da cultura, da Literatura, da sociedade de cada época ficam impregnados nos textos. Ao lermos, essas impressões saltam aos olhos, nos prendem, nos puxam para a leitura e isso é fantástico. Nossos jovens leem pouco, por mais que haja livros novos e antigos dos mais variados gêneros na Biblioteca da Escola em que atuo.

8 - AL: Como escolher um título para indicar para a sala de aula?

R: Simone: Em 2020 estou professora de mais ou menos 700 estudantes semanalmente. Em sala falo de obras literárias que são importantes que se conheçam, não porque ouviram falar, mas porque leram. Sempre oriento os estudantes a buscar na Biblioteca livros de Literatura Brasileira produzida em Mato Grosso para conhecerem o local e o regional. Na Escola Estadual Enio Pipino tem uma estante com esses títulos. Livros de Ireneu Bruno Jaeger, Klaus Henrique Santos, Santiago Villela Marques e muitos outros. Indico também livros de Literatura espanhola: Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Izabel Allende, Gabriela Mistral, Pablo Neruda, Horácio Quiroga, Jorge Luis Borges e muitos outros escritores. São orientações que podem auxiliar os estudantes a escolher títulos que lhes agradem.

9 - AL: Qual a melhor forma de ler para os alunos?

R: Simone: Ler para os estudantes seja em Língua Portuguesa ou em Língua Espanhola é uma maneira de incentivá-los. Cada turma, e eu tenho 20, possui uma dinâmica diferente. Não há uma única forma. Às vezes lemos em voz alta cada um por vez; às vezes leio para os estudantes. São processos que vão se alternando de turma a turma. O importante é sempre ler. Ler a produção dos estudantes e propiciar momentos para que possam ler a própria produção também é uma maneira de fazê-los pensar no processo de produção de escrita deles.

10 - AL: Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

R: Simone: Os textos científicos que produzo, geralmente, são em coautoria. Esse processo é muito interessante, porque entrelaça olhares. Cada autor vai colocando suas palavras, seu modo de pensar e as ideias vão encadeando-se. Com os textos literários, no início era diferente. Não mostrava a ninguém. De repente, por isso, muitos se perderam. Hoje releio quantas vezes forem necessárias. Penso na reação do leitor, no entendimento que terá, nas angústias, alegrias que o texto suscitará em cada um. Cuido com as palavras, considerando que não há palavras sem memórias, conforme Mempo Giardinelli. E essas memórias das palavras possuem significados ou sentidos diferentes em cada tempo. Lembro do texto do Valter Figueira 'As quatro enxadas' em que na cabeça do Zé eram quatro enxadas, literalmente, quatro objetos que se usam para capinar a terra. Na cabeça de Fabriciano, quatro enxadas, era igual a quatros corpos para trabalhar. São memórias que as palavras carregam e significam cada uma a seu modo dependendo da ocasião e do contexto.

11 - AL: Quais escritores influenciaram o seu processo de criação literária, desde o início?

R: Simone: Como já afirmei antes, Cecília Meireles me acompanha desde criança. Minha professora Arina que me alfabetizou também. Neste processo de terminar os textos sem ter conhecimento do original, proporcionou uma dinâmica diferente no processo de criação literária. Além disso, também fazem parte dos influenciadores os citados na questão sete, oito e treze me muitos outros.

12 - AL: Quais são os seus próximos projetos literários?

R: Simone: Quero publicar, até 2021, um livro de crônicas, um de conto e outro de poesia. São metas. Agora que estou resgatando minhas memórias e meus escritos, quero imortalizá-los com as publicações e a Editora Ações Literárias oportuniza esse processo de produção. E isso é muito bom e por isso sou muito grata.

13 - AL: Quais são seus escritores/livros favoritos?

R: Simone: Cecília Meireles. Todos os livros dela. Manoel de Barros. Todos os livros dele. Santiago Villela Marques. Santigo conheci na Unemat em 2004. Sempre lindo. Sempre exalando Literatura. Apaixonei-me por seus textos. Por sua escrita. Pelas memórias de suas palavras. Santiago falava de poesia e carinho. Conhecimento e amor à Literatura. Em função de minha admiração por esse escritor, escolhi-o para ser meu Patrono na Academia Sinopense de Ciências e Letras, cadeira 33. Outros escritores como Graciliano Ramos, Raquel de Queiróz, Érico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, Mario Quintana, Castro Alves, Rubem Alves, Marli Chiarani, Helenice Joviano Roque de Farias, Klaus Henrique Santos, Leni Zilioto, Dolores Flor, Clarice Lispector, Bernadete Crecêncio Laurindo, Marta Helena Cocco, Maria da Paz Sabino, Raul Caldas Filho, Cristovão Tezza, Holdemar Meneses, Urda Alice Klueger, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Izabel Allende, Gabriela Mistral, Pablo Neruda, Horácio Quiroga, Jorge Luis Borges e muitos outros estão na minha lista de favoritos.

14 - AL: Qual obra sua que você gostaria de destacar?

R: Simone: Na Literatura, a obra a destacar neste momento é 'O encantador de borboletas' que publico partes na Antologia de Escritores Contemporâneos, volumes de I a IX. Na parte científica, destaco minha Dissertação de Mestrado. Ela está disponível no site do Programa de Pós-Graduação da Unemat-Sinop, aba Profletras. Mestrandos de 2018. Terceira turma. Foi um texto lindo de se escrever. O título 'Produção textual com uso de gêneros memes e fanzines no desenvolvimento de capacidades de leitura e escrita de estudantes do oitavo ano do Ensino Fundamental', sob a orientação da Professora Doutora Leandra Inês Seganfredo Santos, praticamente resume todas as ações durante dois anos. Desenvolvi a parte prática com estudantes de uma Escola Pública de Sinop. Um trabalho que me proporcionou desafios complexos, mas também muitos conhecimentos.

15 - AL: O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

R: Simone: Eu penso que a maturidade nos traz sabedoria. Estou com 47 anos. Quando jovem eu ficava com os pensamentos martelando na cabeça e não escrevia muito. Até que as ideias iam embora. Hoje eu escrevo. Mas se voltasse ao passado, primeiro teria guardado meus rascunhos com mais cuidado. Como disse, muitos se perderam, principalmente, os primeiros. Às vezes a gente escreve e pensa que não é bom o que escrevemos. Relemos. Descartamos. Parei de fazer isso nos últimos 20 anos. Mas somente em 2019 comecei a publicar textos literários. Hoje vejo a Maria Fernanda, o Willians Andrey, o Mafala Ya Mbumba, a Kiara Baco Anhon produzindo textos belíssimos e tão jovens! É isso. Penso que diria para mim: - Vai, se arrisca. O não você já tem.

16 - AL: Qual dica você deixaria para escritores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

R: Simone: Escrevam. Leiam muito e escrevam muito mais. Acreditem no potencial criativo de vocês. Seus pensamentos são únicos. Guardem seus rascunhos, apresentem a obra prima. Coloquem seus pensamentos no papel. Publiquem. Sejam realizadores de seus caminhos. Não importa a classe social. Busquem seus caminhos. As adversidades nos fazem chorar muitas vezes. Mas quem disse que viver seria fácil. Oscar Wilde disse que "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe". Então, não seja mais um a só existir.