Escritora Jacinaila Ferreira

01/07/2020

Escritora de poesias e contos, iniciou lançamentos pela editora Ações Literárias e já participou de mais de 12 antologias, no momento está em fase de lançamento de sua primeira obra solo, o livro Nuances/2020. Atualmente é mestranda em Letras pela UFRN/UNEMAT campus de Sinop/MT, pesquisadora da escritora Carolina Maria de Jesus, desenvolve o projeto Quarto de Despejo: Temáticas Atemporais para Sala de Aula. 

 Jacinaila Louriana Ferreira

1 - AL: Como você começa os seus textos? Você tem uma rotina?

R: Jacinaila: Meus textos sempre iniciam na mente, penso, me inspiro, organizo, para então, rascunhar. Geralmente uso o bloco de notas do celular, por estar sempre por perto é um dispositivo que me auxilia muito no momento dos primeiros registros e até revisões.

2 - Os textos não-literários contribui com seus processos de construção de textos literários?

R: Jacinaila: Sim, com toda certeza, a teoria literária, as notícias, a prática pedagógica, a história, a ciência, enfim desde o nascer ao pôr do sol me inspiro para o texto literário, visto que, somos feitos de palavras que podem sim, ser organizadas com arte, basta saber ouvi-las, como costumo brincar, é só colocar o ouvido na parede.

3 - AL Como foi o seu primeiro contato com a literatura?

R: Jacinaila: Foi encantador e há muito tempo, ainda criança já ouvia um tio recitar poesias de sua autoria e na escola eu amava aquele livro "Caminho suave", pois além da ilustração era muito rico em textos literários. Também me encantava pelas cantigas de rodas, músicas que mais tarde descobri serem lindas poesias cantadas. Na minha lembrança um dos primeiros textos que li foi de Casimiro de Abreu, "Meus oito anos", "Oh! que saudades que tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais"...

4 - AL:Fale-nos um pouco do seu trajeto literário e quando você começou a escrever os contos e as poesias.

R: Jacinaila: Meu trajeto literário começou ainda menina, quando eu fazia cadernos de versos, pensamentos, diários, entre outros. Porém, minha escrita sempre foi algo muito natural, é como se fosse parte de mim, e que para ser eu, precisasse registrar sempre. Além dos meus caderninhos pessoais, também gostava muito das aulas de redação, contos, crônicas, poesias. Era encantador imaginar e perceber que a história me permitia conhecer novos lugares, caminhos, aventuras, imaginação. Somente em 2019, após conhecer o projeto da editora Ações Literárias, comecei a divulgar alguns escritos de minha autoria e até então, sinto-me imensamente feliz por poder além de escrever, compartilhar.

5 - AL: Como é o seu processo de escrita literária? Qual é a sua inspiração?

R: Jacinaila: Posso dizer que é bem natural, a escrita é algo que brota dentro de mim sem esforços de produção como no texto científico. Meu processo de escrita iniciou-se nas várias leituras e observações. Minha inspiração é a vida, os que sofrem preconceitos, o amor e a falta dele, a natureza, a fome, o sentimento, o racismo que castiga e presunçoso preconceito que destrói. Eu me inspiro ao ouvir as chibatadas nos porões de um navio negreiro e também ao ver alguém morrer por causa da cor da pele. Resumindo, me inspiro na vida e em tudo que me faz pulsar, viver, respirar.

6 - AL: Você é professora, como você vê a literatura hoje na sala de aula no dia a dia com adolescentes e jovens?

R: Jacinaila: Vejo a Literatura em sala de aula como essencial, pois ela humaniza, transforma, liberta e prepara o jovem para o exercício da cidadania. Independente da área escolhida, é necessário um olhar voltado para a escrita e a para a literatura. Quando o aluno lê, consequentemente se identifica e a partir de então encontra seu lugar, sua expressão, sua escrita. É a arte da palavra que permite que o jovem, adolescente ou adulto não apenas decodifiquem códigos linguísticos, mas leem entrelinhas, interpretem, atribuem sentidos e efetivem sua escrita.

7 - Qual o papel da literatura na formação de adolescentes e jovens?

R: Jacinaila: O papel da literatura na formação de jovens e adolescentes é de suma importância, pois ela indica caminhos e cria o sentimento de pertencimento com temáticas que estão presentes no cotidiano do alunado. A formação exige leitura e reflexão, pois é a partir do exemplo que se parte para a prática e forma alunos escritores, seja de números, versos, crônicas, imagens, mas que sejam tocados pela essência da palavra em construção.

8 - Como escolher um título para indicar para a sala de aula?

R: Jacinaila: Em primeiro lugar, é preciso conhecer a turma, considerar o gênero, faixa etária, interesses, entre outros requisitos. Depois é necessário estimular, criar um motivo para esta ação, chamamos isso de motivação. Outro ponto extremamente importante é ser leitor e deixar transparecer sua paixão pelo que propõe. Encontre formas de apresentar o autor, os elementos pré-textuais, um book trailer, o trecho de um filme, uma música, um fanzine, uma nova capa e várias outras metodologias. Durante a leitura, converse com eles sobre o que está acontecendo, dê dicas, conte para eles que o dicionário é um ótimo aliado e não deixe o motivo para a ação se perder no caminho... crie intertextos, mostre exemplos na sociedade em que se inserem. O título para jovens não precisa ser novo, atual, mas lembre-se sempre, ele deve ser atemporal, ou seja, precisa estar vinculado ao dia a dia dos estudantes.

9- Qual a melhor forma de ler para os alunos?

R: Jacinaila: Penso que todas as leituras são válidas, mas sinto meus alunos muito envolvidos e interessados quando faço uma leitura dramatizada. Não é preciso grandes recursos, figurinos, cenários... é preciso sentimento, interpretação, olhar nos olhos, amor. A melhor forma de ler para os alunos, é ler com o coração.

10 - AL: Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

R: Jacinaila: Penso que umas dez vezes, talvez, não tenho certeza. Às vezes depois de considerar "pronto", mudo tudo ou partes, outras vezes troco o título. Sim, sempre leio para meu esposo e filhos, mostro para algumas amigas ou posto em uma página de rede social, desta forma consigo sentir a reação do público. No entanto, sinto que não me preocupo muito em "agradar", penso que estou mais para "desagradar", "desassossegar", provocar uma desinquietação por meio de uma palavra verdadeira e que pode sim, fazer uma pequena diferença no mundo e no comportamento humano.

11 - AL: Quais escritores influenciaram o seu processo de criação literária, desde o início?

R: Jacinaila: Na verdade são muitos, é difícil falar sobre todos, mas posso destacar alguns nomes que muito me influenciaram com sua escrita e destacarei também trechos de suas obras que muito me comove, Cecilia Meireles, me encanta com "motivo", quando declara, "eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa/ não sou alegre nem sou triste, sou poeta"... na sequência Carlos Drummond de Andrade anuncia que, "No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho"... Manuel Bandeira, complementa dizendo, "vou me embora pra Pasárgada/ lá sou amigo rei"... Alphonsus de Guimaraens nos traz "Ismália" e diz, "Quando Ismália enlouqueceu, /Pôs-se na torre a sonhar.../Viu uma lua no céu,/Viu outra lua no mar"... Olavo Bilac tem " Profissão de fé" e diz, "Invejo o ourives quando escrevo:/ Imito o amor"... Carolina Maria de Jesus, além de muitas outras traz a poesia "os feijões", e questiona algo que não pode calar, "Será que entre os feijões/Existem o preconceito/Será que o feijão branco,/Não gosta do feijão prêto?", a escritora Cristiane Sobral complementa, "Naquele dia, Meu pixaim elétrico gritava alto/Provocava sem alisar ninguém./Meu cabelo estava cheio de si"... e por fim a autora arremata minha lista de influências literárias por hoje, "Há poemas que caem/Há poemas que cabem/Como uma luva/E alimentam a alma".

12 - AL: Quais são os seus próximos projetos literários?

R: Jacinaila: No momento me dedico a publicação da minha primeira obra solo e a participação nas Antologias, esta é décima edição. Também participei de uma antologia intitulada Rasuras Negras, composta por um grupo de sete escritoras mato-grossenses.

Atualmente desenvolvo, juntamente com uma das minhas turmas de nono ano do Ensino Fundamental, meu projeto de mestrado a partir da obra, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus, o produto final será a publicação de um livro com as produções de imagens fotográficas e textos feitos pelos alunos.

13 - AL: Quais são seus escritores / livros favoritos?

R: Jacinaila: São realmente muitos, mas posso destacar aqui entre as prosas e os versos alguns autores que aprecio muito ler suas obras, Manuel de Barros, Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jane Austen, Carolina Maria de Jesus, José de Alencar, Machado de Assis, Santiago Villela Marques, Clarice Lispector e claro, não poderia deixar de citar minha mais nova paixão literária, as poesias e contos da minha filha Maria Fernanda Ferreira.

14 - AL: Qual obra sua que você gostaria de destacar?

R: Jacinaila: Bem, não é uma tarefa fácil falarmos de nossos escritos, mas uma obra minha que gostaria de destacar e recomendar é o livro Nuances, repleto de temáticas, cujo propósito é compartilhar um pouco do que ouvi, ao colocar o ouvido nas paredes da vida.

15 - AL: O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

R: Jacinaila: Ao longo dos anos, sempre brinquei que meu sonho era ir embora lá para a cidade do Manuel Bandeira, Pasárgada. Hoje, com pés no chão, compramos uma pequena chácara e lá é nossa Pasárgada, lá tem rainha, meu príncipe, minha princesa e meu rei...

Eu diria que a escrita me fez voltar a ser criança, pois quando percebo que cresço, corro e escrevo uma poesia, pronto, sou criança novamente, sou feliz!

16 - AL: Qual dica você deixaria para escritores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

R: Jacinaila: Escrevam embasados em suas vozes, sua experiência, sua visão de mundo, os outros se encarregam de identificar-se, nem todos gostam do que escreve, essa é a lei da vida... ouçam as vozes de seus autores preferidos, de sua cultura, família, vivencias, alegrias e angustias, permita-se traçar destinos em prosa e versos e ficar gravado em palavras que perpetuam na memória. Finalizo com as simples linhas de uma das poesias presentes aqui, "Hoje sou eu/Ontem não lembro mais/Amanhã serei apenas/Voz.