Escritora Bernadete

29/11/2019

Membro da ASCL - Academia Sinopense de Ciências e Letras, fundadora e Ocupante da Cadeira n.4  Catarinense de São José, e reside em Sinop, há 33 anos. Advogada, Professora e aposentada por tempo de serviço, pelo Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso, como Oficial de Justiça. Graduada em Letras e Direito, cursou Pós-Graduação Lato Sensu, com Especialização em Língua Portuguesa. Escreve contos, crônicas e poemas. Foi Presidente da Academia Sinopense de Ciências e Letras, no período de setembro de 2015 a outubro de 2016.

Bernadete Crecêncio Laurindo

AL: Como foi o seu primeiro contato com a literatura?

R: Bernadete: Vejo que tenho várias respostas para esta pergunta. Atenho-me às mais curiosas lembranças: muito antes de "conhecer as letras", eu já me via às voltas com livros das minhas irmãs; lembro-me de uma tarde de muito sol, entre um canteiro de dálias e rosas, eu debruçada sobre um livro, seguindo as letrinhas, esperando que elas se mexessem como as formiguinhas, nos canteiros de rosas da minha irmã... Eu sentia atração irresistível, curiosidade, pelas letras... E me perdia por entre os labirintos desenhados por elas. 

Ao aprender a ler, ainda no primeiro ano escolar, obtive autorização da professora, e com avidez, corri à biblioteca do colégio, para pegar meu primeiro livro: Alice no País das Maravilhas! Inesquecível, para mim! Cheguei à adolescência, ainda com "inveja" da Alice... Depois desse livro, não parei mais de ler.

Concretamente, minha primeira produção literária se deu ainda no primeiro ano. Dona Mônica, a Professora, nos apresentou uma gravura, representando uma galinha e seus pintinhos, fugindo assustados, de algum invisível perigo. Mandou que escrevêssemos sobre isso. Lembro-me do tema que escolhi - imaginei que a mãe buscava proteger seus filhotes, de uma tempestade iminente. Devo ter escrito muito bem, pois Dona Mônica se mostrava encantada; ria e relia a redação, e saiu a mostrá-la a outras professoras.

AL: Desde quando a senhora escreve literatura?

R: Bernadete: Considero que iniciei aí, com essa redação, minhas produções literárias. Em criança e na adolescência, escrevi muita coisa que hoje, por certo, teriam seu encanto... Voaram, porém, nas asas do tempo; ou viraram cinzas, nos diários de adolescente...

Somente em novembro de 2015, publiquei meu primeiro livro.

AL:Fale-nos um pouco do seu trajeto literário.

R: Bernadete:  Sinto como se já tivesse chegado "aqui", ao mundo, compromissada com o escrever, com a Literatura. A graduação em Letras escancarou-me portas para a uma certa "intimidade" com os autores, os que há muito eu "espiava", embevecida. Daí, timidamente, comecei a pensar: - E se eu pudesse escrever um livro?...

AL: Como é que surge a ideia de escrever um livro?

R: Bernadete:  Não produzo, especificamente, visando à publicação. À medida que escrevo e os textos se acumulam, faço uma avaliação, ponho-os à apreciação e decido então, publicá-los.

AL: Como funciona o seu processo de criação? Quais sãos suas manias (ritual da escrita)?

R: Bernadete:  "Luz", é assim que vejo esta sensação de chamado ao qual não há resistir. A Poesia clama por ser escrita; parece que vem de "um país" onde não há relógio, calendário, espaço geográfico e nada que não seja ela; ela surge quando quer, e esse é o seu tempo; precisa ser segurada num papel, num registro, e no seu instante, porque é repente, é fugaz. Então, obediente às suas "excentricidades", arranjo logo um jeito de segurá-la, onde quer que ela me encontre. Já produzi textos em filas de banco e de consultas médicas, em aviões, ônibus, em aeroportos, em rodoviárias, e caminhando. Já escrevi em guardanapos de restaurantes, em margens de jornais e revistas, e em papel de embrulhar pão.

AL: Você é graduada em Direito e Letras. Como esses conhecimentos te ajudam na hora de escrever?

R: Bernadete:  Ambos os cursos, Letras e Direito têm a palavra como matéria prima de sua produção. Letras estuda a alquimia das palavras, suas metamorfoses e nuanças; para determinar seu querer jurídico, Direito usa toda essa vasta gama de sentidos e valores que aportam em cada palavra. Aí, ela é como ferro em brasa na mão do ferreiro: ele a molda, lhe dá forma. É como barro na mão do oleiro... Daí a afinidade dessas Ciências com a produção literária.

AL: Quais escritores influenciaram o seu processo de criação literária, desde o início?

R: Bernadete:  José de Alencar e Cruz e Sousa, por primeiro, despertaram minha atenção para a beleza da poesia na palavra. O livro Iracema, lido ainda no segundo ano escolar me impressionou de tal forma, que por anos, eu sabia de cor, a primeira página: "Verdes mares bravios da minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba..." Cruz e Sousa, pelos versos que eu ouvia meu irmão declamar: "Vozes veladas, veludadas vozes..."

AL: Quais são os seus próximos projetos literários?

R: Bernadete:  A publicação de um livro que estou escrevendo; projeto de longa data, que conta a história de uma família sob o estigma da hanseníase, durante o governo de Getúlio Vargas. Uma história real. 

AL: Quais são seus escritores / livros favoritos?

R: Bernadete:  Tantos, para nominá-los! Entre romancistas e poetas e suas obras, citando-se, para constar, na Literatura Brasileira: de Padre Antônio Vieira, a Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Zélia Gatai, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Mário Quintana, Ariano Suassuna, a Adélia Prado e Paulo Leminski. Entre esses, incluo obras de poetas e romancistas Membros da Academia Sinopense de Ciências e Letras, e tantos mais autores de todos os tempos, que me encantam sobremaneira. Entre os gêneros literários, prefiro o narrativo - romance, contos e crônicas; e o lírico - sonetos, versos livres e haicais.

AL: Qual obra sua que você gostaria de destacar?

R: Bernadete: Há um certo bloqueio, certa "timidez", não sei bem, em destacar determinado texto ou obra. Ocorre-me, no entanto, destacar aqui, a obra Versos e seus Reversos, meu último livro. Indico-o, assim como os outros, especialmente, quando a alma pede poesia...

AL: Qual dica você deixaria para escritores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

R: Bernadete: Primeiro, deseje. Não falo em sonho, o sonho pode se desfazer, como nuvem; não se aforando a uma conduta ética, o desejo busca, se impõe, realiza. Se deseja publicar um livro, defina o que quer desse livro. Escreva, produza, dê asas ao seu projeto. Não se intimide. Junte tudo isso a muito estudo e muito empenho. A partir daí tudo é possível.