Escritora Leni Zilioto

20/01/2020

Mestre em Gestão e Auditoria Ambiental e especialista em Educação Ambiental, em Supervisão Escolar e em EaD. É bióloga, palestrante e escritora, com treze obras publicadas e várias participações em coletâneas. É curadora para exposições e coordenadora de projetos em audiovisual. Fundou a cadeira 21 na Academia Sinopense de Ciências e Letras, com Érico Veríssimo seu Patrono. 

Leni Zilioto

1 - AL: Como foi o seu primeiro contato com a literatura?

R: Leni: Minha mãe, professora, e meu professor nos anos iniciais da escola, com os clássicos: Chapeuzinho Vermelho, A Cinderela, A Lebre e a Tartaruga, e outros. Lembro, que à época, anos 70, as escolas do interior, no Rio Grande do Sul, recebiam das Secretarias de Educação os livros de leitura com um flanelógrafo e as imagens dos personagens em feltro, com lixa no seu verso, para o professor ir colocando as imagens no flanelógrafo à medida que ia contando a história. Um tipo de Youtube da época (risos). O dia que professora(a) contava história era meu dia preferido de aula.

2 - AL: Desde quando a senhora escreve literatura?

R: Leni: tenho registros em caderninhos e agendas desde meus 12 anos de idade, quando fui matriculada em um Colégio Confessional Católico em Casca, no RS, e com medo de que as irmãs encontrassem meus poemas, eu escrevia poemas para Jesus. Já aos 15 anos tenho registros dos meus primeiros poemas de amor, de paixão, próprio de adolescente.

3 - AL: Fale-nos um pouco do seu trajeto literário.

R: Leni: Então, desde que me lembro, escrevo. Ao mesmo tempo, a cultura sulista de descendência italiana, pautada em valores mais preponderantes como estudar, trabalhar, ganhar bastante dinheiro, comprar sua casa, construir sua linda família. Essa cultura, além do contexto sul e descendência, tem a questão tempo/época, ou seja, anos 70 e início de 80. Por isso, eu estudei, cursei faculdade, me profissionalizei, me estabeleci como profissional da educação, casei, construímos nossa casa e tivemos nossos filhos. Tudo como manda o figurino. O que o figurino não dizia e eu mesmo assim fui fazendo, foi escrever. Aluna na faculdade, namorando, trabalhando, tendo os filhos, fui rabiscando agendas, cadernos, guardanapos de papel, onde eu pudesse, registrava meus pensamentos que sufocavam e eu tinha que soltá-los para não explodir (ou implodir). Poemas. Basicamente poemas. Minha filha Fernanda e minha amiga Stela Maris, em um dos meus aniversários, me deram de presente um CD com músicas do John Lennon e um poema escrito na capa do CD. Ao ler o poema, fiquei intrigada, dizendo, "eu conheço esse poema, mas não lembro de quem é". Até as duas revelarem que mexeram em meus escritos e decidiram colocar um poema meu na capa do CD. Disseram mais: "você deve publicar um livro com esses seus poemas". Aquilo ficou latente até o dia que decidi, então, transformar os "rabiscos" em livro. Isso foi em 2001, quando lancei meu primeiro livro, Metamorfose, que foi traduzido para o italiano, Metamorfosi, na Jornada Nacional de Literatura em Passo Fundo, oportunidade que tive de fazer coro com Afonso Romano de Santana, Matha Medeiros, Marina Colassanti, Ziraldo e Inácio de Loyola Brandão. Acredito que com padrinhos desse gabarito, foi um início abençoado. Ao lançar meu primeiro livro, me propus ao desafio de, se escritora, lançar no mínimo um livro a cada dois anos. O ritmo não seguiu essa lógica, demorando três para lançar o segundo. Em contrapartida, a partir de 2010 foi praticamente um livro por ano e, a partir de 2017, mais de um livro por ano. Mosaico de Palavras foi lançado na Feira do Livro de Porto Alegre no mesmo palco de autógrafos, ao lado do Patrono da Feira, Armindo Trevisan. Amor Meu Sol, também na feira do Livro de POA, foi no palco de autógrafos ao lado de Rubem Alves. Trocamos nossas obras. Emocionante para uma escritora e educadora! Entre as Jornadas de Literatura em Passo Fundo e as Feiras do Livro de Porto Alegre, fui construindo meu caminho literário, até chegar a Nova Mutum, em 2011, onde lancei meu primeiro livro em Mato Grosso, Carolina Fechou uma Porta, que foi para três edições em um ano e lançado na Biblioteca Nacional de Nova Iorque, sob a curadoria do Professor Dr. Domício Coutinho. Em Nova Mutum lancei também Carolina Conectada e o livro das mulheres, O Brilho de Estrelas Imortais Volume 1 (2014), projeto estendido para Sinop com o Volume 2 (2017). Ao fixar residência em Sinop, lancei em 2015 meu primeiro livro na cidade, onde atualmente me brinda com essa honrosa homenagem e fui admitida na Academia Sinopense de Ciências e Letras, ao qual sou muito grata. Desde então, minha trajetória literária tem base, apoio, sustento, inspiração, ambientação, enfim, além da imaginação, o cenário do norte mato-grossense, especialmente Sinop e região.

4 - AL: Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

R: Leni: Eu acredito e prezo pela boa escrita. Ou seja, que o escritor, no mínimo seja leitor. Eu lembro que ao entrar para a sexta série do ginásio, ao ter acesso a uma gigantesca biblioteca no colégio em Casca, eu devorava livros. Acredito que eu lia mais de 4 livros por mês. Lembro-me que em uma gincana escolar, o desafio era responder à pergunta: Quem é o autor do livro "Olhai os Lírios do Campo"? Eu me levantei na arquibancada onde havia mais de 500 alunos e, de forma natural, respondi: Érico Veríssimo! O ginásio fez silêncio, porque ninguém mais respondeu. Eu acredito que se não a única, eram poucos que sabiam responder. Lembro-me que à época até eu me surpreendi, porque eu achava que quase todos saberiam responder, ou seja, ler deveria ser um hábito de todos. Ao cursar ensino médio em Guaporé, também em uma grande escola de freiras e responsável pela biblioteca, eu lia coleções inteiras, especialmente os proibidos, como Jorge Amado (se a freira, Irmã Palmira, estiver ainda viva, saberá que infringi essa norma). Eram proibidos e eu deveria escondê-los para os alunos não lerem. Aí então que eu lia e dava para meus amigos lerem. O que eu quero dizer com isso, que a maior formação de um escritor, é a leitura. Já, formação acadêmica, não tenho. Sou Bióloga com especialização em Educação Ambiental e Mestrado em Gestão e Auditoria Ambiental. Cursos específicos, nunca fiz. Deveria fazer? Acredito que sim, melhoraria ainda mais minha escrita. Ao mesmo tempo, ao ler meus poemas escritos aos meus 12/13 anos, me faz acreditar que Platão me define um pouco quando diz que poeta é por vocação e não por formação. Haja vista Pablo Neruda e Vinicius de Moraes que, acredito tiveram a vocação e a formação pela leitura, não necessariamente acadêmica. Esses dois são meus gurus na poesia, além de Elisa Lucinda e Afonso Romano de Santana. Percebo que me identifico com eles, mas não os leio para escrever como eles. Ou seja, gosto do estilo deles, li e leio seus poemas, mas não os utilizo para escrever os meus poemas. É diferente, não sei bem explicar isso. Em 2006, quando viajei ao Chile, conheci os jardins e a casa (inclusive a parte interna) de Pablo Neruda, em Santiago; tem fotos do Vinicius na parede do escritório dele. Foi uma experiência quase que sagrada. Em meus livros biográficos, não há interferência minha; é fidedigno à entrevista dos personagens, em respeito à proposta: sua história de vida. Obviamente que eu dou um jeito de fazer a poesia aparecer, escrevendo um poema para a pessoa entrevistada. Até no meu livro infantil tem poesia. Também, arrisquei um estilo jornalístico em um livro encomendado por um padre sobre a devoção Nossa Senhora Mãe da Juventude. Não sei se deu certo; quem deve dizer é o leitor (risos). Agora, acredito que para responder efetivamente à pergunta que é sobre o processo de criação, devo dizer que eu leio, estudo, pesquiso, entrevisto, mas minha inspiração são dois elementos básicos: a noite e a natureza. A natureza, de dia, claro. Quando eu me conecto com a natureza, preciso estar munida de papel e caneta. E a noite, acompanhada por vinho tinto seco e chocolate, eu organizo as ideias, os estudos, as pesquisas, as inspirações, os Vinícius e os Nerudas que baixam em mim para produzir. Acredito que se eu tiver que ter meu escritório de escrita, funcionaria a noite ou ao ar livre, com muito verde ou mar.

5 - AL: De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa? Como funciona o seu processo de criação?

R: Leni: Poxa, eu acredito que uma parte da resposta está na questão anterior. O que eu posso acrescentar aqui, aproveitando o espaço, é dizer que o hábito de comprar livros é um, o de ler muito é outro, e escrever mais ainda é outro. Antes, muita caneta e cadernos. Hoje o computador. Leio. Leio. Leio. Escrevo. Escrevo. Escrevo. Além disso, uma proposta de não passar mais de uma semana sem escrever algo que seja conteúdo para um de meus próximos livros. E nesses momentos de escrita, a natureza, a noite, o vinho tinto seco e o chocolate ou um café com biscoitinhos miúdos que caibam inteiros na boca. Vícios, não mais do que a literatura, por quem sou apaixonada. Ah, e música. Fundo musical de saxofone. Acho o saxofone um instrumento musical completo, inspirador, imponente e ao mesmo tempo suave. Um poema!

6 - AL: Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

R: Leni: Reviso e reescrevo várias vezes. Algumas vezes eu até paro de revisar, porque a cada leitura, algo se modifica. E isso é normal, porque não somos mais os mesmos do momento anterior. Como disse alguém, que não lembro quem disse, "homem e rio nunca são o mesmo". No momento seguinte você já é outra pessoa, outros sentimentos, no mínimo mais evoluído. Então, eu reviso várias vezes sim, mas há um momento que é preciso parar para não perder a essência. Sempre mostro a alguém antes de enviar à editora. A opinião de pessoas que eu considero relevantes para meu trabalho, leem meus escritos antes de serem publicados. Desde o primeiro, lá em 2001, que foi até inusitado. Eu precisava de um parecer, além da minha filha e minha amiga Stela Maris, lógico. Então, na cidadezinha onde eu morava, havia na época ainda o costume do "médico da família". Ou seja, o médico, amigo da família, era o que atendia o telefone até às madrugadas se fosse necessário. O da minha família era o Dr. Roberto Arroque, que prefaciou meu primeiro livro lançado em Sinop, As Cores e os Amores, e é irmão da Maria Amélia Arroque que ilustrou o livro, juntamente com o artista plástico cuiabano, Adriano Ferreira. Na cidade, à época, considerei o Dr. Roberto a pessoa ideal, cujo nível cultural é acima da média, pelas vezes que tive oportunidade de conversar com ele em atendimentos clínicos e em encontros de família. Ao me devolver o boneco revisado, constatei que ele não havia feito nenhuma observação, nenhuma ressalva. Então o questionei, perguntando se ele não considerou que nossa cidade era pequena, de cultura ultra conservadora, que eu era casada, com filhos, professora e diretora de escola, e havia poemas cuja interpretação poderia ser mais julgamento do que leitura de poesia. A resposta dele foi: "Você quer escrever para Serafina Corrêa ou para o mundo?" Decidi publicar sem mexer em nada. E deu certo. Sei que sou lida no mundo, porque minha experiência em Nova Iorque foi maravilhosa, onde foi lançado também, em 2018, outro livro, em conexão online com Sinop. Uma experiência inusitada para quem participou. Agora meu livro infantil foi traduzido para o inglês e já está sendo distribuído na Europa. Esse conceito de "escrever para o mundo" foi importante recebe-lo no início, pois me manteve nessa energia, de escrever para o mundo. Se o meu vizinho de porta não gostar, quem mora do outro lado do oceano poderá gostar. Jamais conseguiremos agradar a todos e críticas sempre haverá. Pra frente que atrás vem gente (risos)!

7 - AL: Quais escritores influenciaram o seu processo de criação literária, desde o início?

R: Leni: Eu acredito que escritores não me influenciam. Eu tenho meu próprio estilo. Não me apego muito a escrever desse ou daquele modo/estilo. Como disse anteriormente, eu gosto de ler e da forma com que alguns escritores escrevem, como os que li bastante e já citei: Érico Veríssimo, Jorge Amado, Vinícius de Moraes e Pablo Neruda. Gosto bastante também e li muito na minha juventude, Khalil Gibran, Julio Verner, Eduardo Galeano, Leiv Tolstói, Martha Medeiros, Elisa Lucinda, Adélia Prado. Conheci aqui em Mato Grosso o apaixonante Manoel de Barros e li um livro do Eduardo Mahon, cuiabano, que me agradou sua escrita. Há outros, com certeza, que não me vem à memória agora e muitos outros que eu leio porque gosto; obviamente se tornam referência para a boa escrita, não necessariamente o mesmo estilo.

8 - AL: Quais são os seus próximos projetos literários?

R: Leni: Essa é uma pergunta é interessante. Meu maior projeto, por isso a longo prazo, é escrever um romance. Talvez por ter assistido a muitos filmes e lido muitos romances, eu idealizo até o ambiente em que eu vou estar para escrevê-lo. É bem peculiar. Para isso, eu devo me liberar de alguns compromissos ainda hoje necessários. Já a curto prazo são vários os projetos. Entre eles, concluir a série de livros infantis, que é de 5 volumes e só escrevi 1; uma antologia pessoal, com poemas escolhidos entre todos os livros que já publiquei até o momento - quem sabe esse seja o bônus que ganharei da Ações Literárias por participar por 12 meses no projeto; seguir registrando a saga das guerreiras pioneiras de Sinop.

9 - AL: Quais são seus escritores / livros favoritos?

R: Leni: Acredito que favoritismo é um tanto quanto segregador. Prefiro dizer que são meus amigos porque me vem à memória com mais facilidade. Então, dos que citei, posso dizer que gosto bastante do Tolstói, do Gibran e da Martha Medeiros.

10 - AL: Qual obra sua que você gostaria de destacar?

R: Leni: Opa, pergunta que todos fazem, inclusive em entrevistas ao vivo, na televisão. Essa pergunta é boa e deve ser feita, porque é uma real curiosidade do público leitor e deve ser dada a resposta autêntica de cada escritor. A minha é dizer que, para mim, é como se perguntassem qual é meu filho preferido. Não há. Cada um é um e com seu igual valor e amor dedicado. Amo todos. Os brancos, os ruivos, os morenos, os de cabelo longo, os carecas, os calminhos, os hiperativos. Para quem tem filhos acredito que entenderá. Filho é filho. E livro é livro. Já, o que está dando bastante bandeira, se exibe e está de vento em popa é o infantil, cujo enredo é a história de 3 meninas que moram na roça e uma delas tem medo de manequim de loja. Esse é o volume 1, que termina provocando o leitor para lei o volume 2, que ainda não escrevi, onde as meninas e sua família deixarão a roça para morar na cidade. Já tenho os personagens e o enredo. Falta registrar e publicar. Acredito que esse livro está em evidência também por suas aquarelas, coloridas e vivas, criadas na essência do texto pela ilustradora dos meus livros desde 2001 e que tem a habilidade do traço e o dom da interpretação do texto escrito em imagem, Adriana Maria Cofcewicz, arte-educadora e amiga, do Rio Grande do Sul

11 - AL: O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

R: Leni: O que melhorou foi visivelmente a estrutura dos textos e o conteúdo, cada vez mais complexo e reflexivo. Como falei, nunca somos os mesmos; o meu momento seguinte já sou outra pessoa. Já o mudar o que escrevi, jamais. Se o fizesse, não teríamos a oportunidade de testemunhar a caminhada. E a caminhada é o sentido de tudo. Obviamente que isso é diferente de dizer que, se eu pegar agora os mesmos poemas, eu não os modificarei em alguma coisa. Tenho certeza que sim, pelo argumento anterior. Que eu acredito que acontecerá em minha antologia pessoal. Mas, na essência, naquela edição, nada eu mudaria. Lá eu me vejo cru, verde, amadurecendo, evoluindo. E ver isso é por si só um aprendizado, com sua própria obra.

12 - AL: Qual dica você deixaria para escritores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

R: Leni: Fiz essa pergunta para Lya Luft, em 1983, na 1ª Jornada de Literatura de Passo Fundo, quando hospedamos escritores em nossas casas a fim de viabilizar o evento. São lembranças marcantes, e essa pergunta me remete àquele momento. Lya respondeu: "Escreva! Não pare de escrever". Eu não entendi muito bem na hora, porque foi uma resposta nada prática. Hoje eu compreendo. Chegou o tempo delas. Ou seja, para quem quer ser escritor, escreva. Isso é fundamental. O tempo/momento de publicar, aparece. Já, se eu puder acrescentar algo, com base em minha caminhada e ao mesmo tempo conhecimento do mercado literário, inicie participando de coletâneas, como essa. Por isso eu parabenizo a iniciativa da Ações Literárias. Essa proposta poderá se tornar uma pista de decolagem para muitos escritores até então no anonimato. Perceba que, para isso, você precisa ter escritos. Ou seja, se dei a dica de participar de coletâneas, você precisa ter produto. E, obviamente o básico: leia! Leia muito. A leitura é o melhor professor do escritor. Veja que eu disse "a leitura", não "outros escritores". Porque, cada um deve construir sua literatura, seu estilo, seu conteúdo, seu "livro/poema/conto/romance". Ele não precisa, e acho que nem deve, se parecer com o de fulano ou ciclano. Seja você! Com essa dica de publicar em Antologias, quem sabe você não demore tanto quanto eu entre a dica da Lya Luft e a publicação do meu 1º livro que foi quase 20 anos.