Do fundo do baú

01/04/2021

Escritor Romeu Donatti

*Do fundo do baú.

Recordo-me como se fosse hoje:

Estávamos em uma sexta-feira. O sol já se punha no horizonte, onde renovaria suas forças para retornar vigoroso no dia seguinte. O relógio de parede apontava seis horas; era o momento em que os peões voltavam às suas casas e os animais ao curral.

Lá ia minha mãe, fagueira, carregando seus baldes, tirar leite. A ordenha sempre era longa, pois com cada vaquinha, mamãe tricotava minutos a fio.

Os galináceos já haviam jantado, no farto cardápio, ração especial e milho fresco.

A fazenda estava envolta no mais completo silêncio. Sentados na varanda, ficávamos fitando as longínquas estrelas e aguardando ansiosos para ouvir as emocionantes histórias de Vó Cândida. A chaminé fumegava, em poucos instantes jantaríamos. Todos estavam sentados em roda, no chão: eu, Rosinha, Lúcio, Vivi e a Vovó.

Os ouvidos aguçados não deixavam escapar uma só palavra sequer, nem mesmo um suspiro que Vó Cândida emitia para tornar sua narração ainda mais real e envolvente. A história daquele dia assim começou:

"Meus netinhos queridos e adoráveis, esta história aconteceu há mais de cinquenta anos, e é lembrada até hoje por exercer tamanho fascínio e despertar compaixão no coração das pessoas. Ocorreu assim, nos tempos de Páscoa, como hoje, envolvendo a família dos Junqueira de Sá. Tudo iniciou, mais precisamente duas semanas antes da Páscoa do ano de 1943.

Pingo D'água era o nome da fazenda dos Junqueira de Sá. A família era composta pelo patriarca Tião, sua esposa Betânia e os filhos: Tibério, Túlio e a flor mais bela e formosa da região, Ana Junqueira.

Ana, ou melhor, Nica (como era carinhosamente chamada por todos), tinha lá os seus quatorze anos, e era linda como a rosa, perfumada como o jasmim, delicada como a onze horas. Era puro encanto! A doçura e a meiguice lhe realçavam a beleza. Nica era branquinha, branquinha; tinha os cabelos louros cacheados e os olhos miúdos e espertos, da cor do céu. Parecia uma boneca, tamanha sua formosura!"

Ninguém ousava interromper tão bela narrativa e, todos boquiabertos olhavam fixamente para a Vovó.

"Não havia uma só pessoa na região de Guaporé que não conhecesse e admirasse o pequeno anjo da Pingo D'água" - prosseguiu Vó Cândida. "Nica adorava a natureza e todos os dias passeava nas proximidades do riacho que corria manso e ordeiro nas terras férteis da fazenda, de tal forma que a paisagem dobrava sua beleza. Nica era o exemplo de boa filha, boa amiga, de humanidade e de solidariedade.

Os preparativos para a festa de Páscoa estavam a todo vapor, data como essa no interior, é um acontecimento! Faltava apenas uma semana para o Domingo da Ressurreição, o grande dia! E naquele ano os Junqueira de Sá receberiam quase todos os parentes, muitos amigos e vizinhos. Vários, inclusive, já haviam chegado e não havia quem não quisesse fazer algo para alegrar ainda mais a doce Nica. Aos poucos o ar festivo cobria a fazenda com uma aura de fé, amizade e boas novas. A alegria fazia-se visível em cada rosto de criança e de adulto.

Porém algo terrível estava para acontecer... uma sombra de tristeza teimava em rondar as terras fecundas da Pingo D'água.

No Sábado de Aleluia, Ana acordou indisposta. Ficou recolhida em seu quarto o dia inteiro, febril e com agudas dores de cabeça. Todos se revezaram nos cuidados com a menina.

O dia seguinte, o tão aguardado Domingo de Páscoa, amanheceu sem cheiro e sem cor. Ana estava ainda mais abatida. O mal que lhe atacava era feroz e devastador. A febre e as dores não cederam aos cuidados, às orações, aos chás de ervas, a nada. A festividade dera lugar ao pesar!

Mulheres e homens, jovens e anciãos, movidos e unidos pela fé, rogavam, fervorosamente, a Deus pela melhora de Nica. Todas as preces foram em vão, ao fim de quatro dias de muito sofrimento, a situação da menina se agravara e ela, prostrada em sua cama, nem de longe lembrava aquela garota livre, leve e feliz que corria pelo roseiral e pelo pomar, brincando, graciosamente, com suas cadelinhas Meg e Mel.

Vieram curandeiros, benzedores, padres e também os melhores médicos da capital. De nada adiantou! No quinto dia de enfermidade, logo após o meio dia, Nica faleceu! Nas redondezas todos foram vê-la pela última vez. E lá estava ela: vestida de branco, ladeada por flores, parecia uma santa, inerte!

Os pais lamentavam-se, copiosamente, corroídos pela dor; os irmãos menores Tibério e Túlio, um de cada lado do caixão, em sua inocência e delicadeza, desesperados choravam e imploravam para que ela despertasse... Porém, sua alma já chegara ao céu!

Foi o episódio mais doloroso que aquelas terras testemunharam. Dias e dias se passaram, porém, a tristeza, profundamente, fincava suas raízes.

Extremamente comovido, o prefeito da cidade, amigo próximo da família, ordenou a construção de uma capela às margens do riacho, na beira da estrada, onde fora colocado um enorme retrato pintado à mão de Ana Flor Junqueira de Sá. A partir de então a fama de "santa" da menina de faiscantes olhos azuis espalhou-se como um rastilho de pólvora e foram muitos os relatos de graças alcançadas pela intercessão da "flor mais bela da região".

E todos os anos, desde 1944, na época de Páscoa é realizada uma procissão pelas estradas verdejantes das fazendas, até a capela, em homenagem àquela menina, bondosa e alegre, levada pela moléstia, santificada pelo povo, cujas virtudes, atos e gestos transformaram-se em exemplos e novas razões para festejar o dom da vida".

Lembro-me ainda, que ao término da narração, Vovó nos olhou, com candura, como só avós e mães nos olham, e todos nós estávamos com os olhos marejados, apiedados do sofrimento de Ana e encantados por sua história.

Lamentávamos o fim da narrativa, seguíamos para a sala de jantar e felizes e ansiosos esperávamos o próximo dia para ouvir mais histórias fascinantes da Vovó Cândida. E assim foi durante toda nossa saborosa e inesquecível infância e adolescência.

Vinte e cinco anos se passaram desde esse episódio na varanda. Vovó Cândida infelizmente já nos deixou; e cá estou eu, no chão da sala a contar essa história a meus filhos.

*Conto agraciado com o 2º Lugar na Categoria Contos, da Semana Cultural (30/04/1994 a 07/05/1994) da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT - Campus de Sinop), publicado no livro "A semente caiu em terra fértil" e adaptado para essa obra