A Fadinha Cristal e a Magia do Oceano contos volume 01 

01/01/2021

Conto da Escritora Leni Zilioto de Lucas do Rio Verde-MT

O que é a magia, senão aquilo que faz a alma vibrar e sorrir? A magia aquece o coração, leva as pessoas a sentirem que a vida vai além da rotina fria dos dias e as faz entender que todas as ideias e sentimentos são possibilidades, como se fosse uma luz que se acende no fundo do mar. É só acreditar... E, de repente, magia e realidade se fundem, criando um ambiente propício para a realização de todos os sonhos. Apenas acredite!

Meu nome é Cristal. Eu sou uma fada nascida no século XVIII, em Paris, na França. Após o falecimento do meu avô, Antoine, minha família se mudou para as Américas, e atualmente vivemos na cidade de Santa Clara, que fica no Vale do Silício, na Califórnia. Ao receber os poderes de fada, eu passei a estar em todo lugar, onde eu quisesse estar.

Um dia eu sai para nadar no mar que banha o Vale. Eu estava tão disposta, que fui mergulhando cada vez mais fundo, observando tudo com encantamento. Passei por peixes de todas as espécies e cores que acenavam cordialmente para mim com suas barbatanas ou suas caudas. Eu estava tão empolgada com aquele universo colorido do fundo do mar, andando entre os corais, que nem percebi que me distanciara demais da superfície, e mesmo sendo uma fada, senti-me perdida. Decidi não me apavorar, apesar de minha mente já ter começado a pensar em meus pais preocupados se eu demorasse a retornar, porque eu não havia lhes avisado que sairia para nadar. Eu não deveria ter feito isso, assim como não deveria ter me distraído pelo caminho. Mas até as fadinhas erram às vezes... O jeito era me acalmar e pensar em uma solução. Sentei num coral e fiquei parada admirando o nadar majestoso de alguns peixes de corpo listrado em preto e branco e barbatanas e cauda amarelas com pintas pretas, além de outro peixinho gracioso, que parecia uma carambola nadando. De repente assustei-me com um flash de luz azul, mas logo percebi que era apenas uma Medusa coronata, que bailava com seus lindos tentáculos. Ao olhar para o lado, tive a impressão de estar vendo meu Pokémon, e comecei a rir sozinha do peixe remo, também conhecido como regaleco, que passou por mim e foi embora seguido por dois peixes jamanta.

Eu me perguntava como era possível que houvesse tantas cores no fundo do mar, já que a luz não penetra nas profundezas... Corais e peixes coloridos, alguns brilhantes, estrelas do mar, polvos, conchas, cavalos marinhos, baleias, tubarões, caranguejos gigantes, medusas... Nossa! Um universo infinito de vidas! Apesar de estar feliz e encantada, lembrei-me de que estava bem longe de casa e, mesmo sendo fada, eu precisava me concentrar para encontrar o caminho de volta. Eu precisava da minha varinha mágica... Um Plim me levaria direto para meu quarto, claro! Então, lá fui eu pegar minha varinha que guardava em meu vestido azul de fada. Mas, cadê minha varinha? Não está aqui! Como assim? Comecei a falar alto comigo mesma. Nem percebi que em volta de mim formava-se um cardume de peixinhos miúdos de todas as cores, que olhavam para mim sérios, parecendo preocupados. Cumprimentei-os educadamente fazendo uma leve reverência e eles continuaram sérios, mas acho que responderam ao meu cumprimento, porque todos agitaram seus rabinhos e suas barbatanas. Um lindo peixinho palhaço, com seu corpo listrado de vermelho e branco, aproximou-se e perguntou:

Quem é você?

- Sou a Fada Cristal - respondi gentilmente. E você?

- Eu sou Chip, e esses são meus amigos. Você precisa de ajuda?

- Eu preciso retornar para minha casa antes que papai e mamãe se preocupem com a minha demora.

- E por que você não pode retornar?

- Distraí-me pelo caminho, admirando a beleza do fundo do mar, e não me lembro do trajeto. Então pensei em voltar com o pozinho mágico da minha varinha, mas não a encontro. Eu a guardo bem aqui, nesse bolsinho do meu maiô.

- Você tem certeza de que da última vez você a guardou aí? - perguntou Chip.

- Sim! Eu acho - respondi, fazendo cara de dúvida.

- Lembra o que você fez antes de mergulhar no mar, assim você lembrará se guardou a varinha no vestido - sugeriu Mandarim, um peixe lindo, de cor azul brilhante com redemoinhos na cor laranja, cujo movimento na água é encantador.

Enquanto conversávamos, iam passando por ali alguns peixes como o anjo de face azul, o cirurgião patela, o cirurgião amarelo, o anjo imperador e outros. Olhavam para nós rapidamente e seguiam nadando por entre os corais coloridos.

- É, Cristal, essa é uma boa técnica para lembrar - falou um lindo peixinho beta todo vermelho, agitando alegremente suas barbatanas abundantes, mais parecendo a saia de uma bailarina dançando.

Decidi ouvir os conselhos e procurei refazer meus últimos passos antes de entrar no mar. Lembro-me de ter encontrado minha amiga Ametista e meu amigo Jaspe no caminho e conversado com eles sobre nanotecnologia, mas percebi que Jaspe não estava ligado na conversa, porque elogiou o meu cabelo. Eu fiquei um pouco sem jeito e... Opa, lembrei! Peguei a minha varinha mágica do vestido que vestia e com ela prendi meu cabelo. Minha nossa, mas não está aqui no cabelo!!

- Claro que não, afirmou Chip. Como estaria se você mergulhou? Você está com seu cabelo solto. A varinha soltou-se.

- E deve estar bem no fundo do mar, acrescentou um peixe molinésia, todo branquinho.

Bem, uma parte da questão estava resolvida. Eu sabia onde estava minha varinha: lá no fundo do mar. A outra parte da questão era como encontrá-la. Pedi ajuda aos peixinhos e logo eles foram nadando para baixo. Um deles perguntou: - Qual é a cor da sua varinha, Cristal?

- É azul, e tem uma estrela cor de pérola na ponta - respondi.

Acompanhei o cardume, muito atenta para ver se pelo caminho eu via a minha varinha, talvez enroscada em um coral. Conforme íamos avançando para o fundo do mar, ia ficando mais escuro, até eu não conseguir enxergar quase nada. Então eu parei e disse:

- Meus amigos, vocês sabem dizer se falta muito para chegarmos ao fundo do mar? Porque daqui em diante não vai adiantar nada eu acompanhar vocês. Eu não enxergo nada nessa escuridão.

- Não sabemos, Cristal, porque nós nunca fomos ao fundo do mar - falou Mandarim.

Deus do céu! Paralisei. O que eu estava fazendo? Colocando todos em perigo. Eu ouvi falar que quanto mais fundo o mar é, mais escuro fica e há uma pressão maior, podendo até nos esmagar. Aqueles peixinhos delicados com certeza não teriam o corpo tão resistente assim. Eu costumo controlar o meu medo, mas confesso que nesse momento eu estava bem assustada. Foi quando um peixe anjo real, que nos acompanhou mantendo distância, falou:

- Fiquem aqui. Eu vou buscar ajuda. Em poucos minutos o lindo peixe anjo real, o Pygop, voltou com seu amigo que mais parecia um monstro do que um peixe. Fiquei intrigada com a aparência do peixe diabo-do-mar com aquela lanterna acesa na cabeça, e ao mesmo tempo aliviada por enxergar um pouco mais ao meu redor. Ele foi logo se apresentando:

- Olá Fada Cristal. Eu sou o Caulefrine e trouxe minha amiga Giga para ajudar. Meu amigo Pygop disse que sua varinha mágica caiu no mar.

- Sim, balbuciei, extasiada com o tamanho da amiga do diabo-do-mar, uma linda Lula-de-hamboult. Ela tinha um ar imponente, e acenou para mim com um de seus longos e fortes tentáculos.

- Pois bem. Eu conheço o fundo do mar como ninguém, e Giga irá comigo para o caso de precisar entrar em espaços muito apertados, falou Caulefrine.

Quando as duas grandes criaturas se viraram para iniciarem a busca, a pequena lanterna na cabeça de Caulefrine iluminou os corais e eu gritei entusiasmada:

- Achei! Ali, olhem, é a ponta da minha varinha!

Giga se aproximou do objeto que eu apontara e, com um de seus tentáculos, cuidadosamente juntou uma linda pérola e a entregou para mim. Olhei para a pérola encantada, mas triste por não ser minha varinha.

- E a Ostra? Você a tirou da Ostra, Giga? Pode devolvê-la.

- Não se preocupe, Cristal, disse Giga. Pelo tamanho dessa pérola é de uma ostra que já morreu.

- Posso leva-la comigo para me lembrar de vocês?

- Ela é toda sua, Cristal.

Giga é gigante, e delicada e gentil ao mesmo tempo. Ficamos aguardando por uns 10 minutos, eu acho. Ninguém tinha relógio e nem celular para controlar o tempo, só sei que não foi rápido e também não foi demorado. Mas de repente, lá estava ela, linda, segurada cuidadosa e graciosamente por Giga, que vinha majestosa nadando em nossa direção com minha varinha mágica azul com uma estrela perolada na ponta. Os peixinhos parecendo sorrir, sacudiam vertiginosamente suas barbatanas e suas caudas como se estivessem batendo palmas, e abriram caminho para Giga me entregar a varinha mágica. Quando peguei a varinha, Giga se afastou um pouco e ficou junto ao cardume colorido e feliz em minha frente. Ao fundo do cardume vi Caulefrine, radiante, com sua lanterna ainda acesa. Eu nem sabia o que dizer. Eu estava muito feliz e agradecida. Um sentimento diferente do medo de outrora. Olhei para aqueles animais aquáticos com amor e falei: - Muito obrigada!

- Você vai embora, Cristal? Falou uma vozinha miúda. Era um lindo Platy cor de laranja e amarelo com uma mancha preta próxima à cauda, mais parecendo a cabeça do Mickey mouse.

- Eu devo ir, falei. Papai e mamãe já devem estar preocupados. Vocês foram heróis e amigos. Amo todos vocês. Vou levar essa perola que ficará bem à vista para eu lembrar todos os dias de vocês.

Antes de sacudir a minha varinha mágica, eu fiz uma reverencia e agradeci novamente a todos pela ajuda.

Plim!

De repente, lá estava eu em meu quarto, ouvindo mamãe me chamando para o jantar. Você pode pensar que tudo que eu vivi foi um sonho, mas isso é um engano. Eu sou uma fada, e as fadas podem ir para onde quiserem e viverem todas as experiências que puderem. Apertei firmemente a pérola que segurava na mão, lembrei-me de tudo o que vivi e sorri com as lembranças. Sorri mais ainda quando me dei conta de que todas as crianças são fadas. 

Conto publicado na antologia de contos volume 01