Antigamente Contos volume 4

02/04/2021

Antigamente era um tempo maravilhoso. Famílias enormes, com muitos filhos, morando em casas grandes, espaçosas, sempre com muita gente. Por isso, quando se juntava a parentada, era gente que não acabava mais.

Era tio, tia, primos, primos, uns já eram grandes, outros pequenos, outros de colo. Não se sabia o nome de todos, não. Era gente pra caramba.

Aí chamava assim:

"Bênção, tio".

"Bênção, tia".

"Vem brincar, primo"!

"Vamos passear, prima"!

Hora da refeição era aquele alvoroço, de gente, de comida, de bebida, de louça. Nenhuma mesa comportava tanta gente junta. Então os mais velhos tinham a preferência: sentavam-se à mesa. Os mais novos se ajeitavam em qualquer canto e até mesmo espalhados pelo chão, com o prato na mão. Mas o que importava era que tinha comida e sempre com muita fartura, porque todos moravam na roça: mandioca, arroz, feijão, galinha caipira, milho verde, ovo frito, batata doce, e muito mais.

O momento de dormir era uma loucura. Camas todas ocupadas, cobertas espalhadas pela casa serviam de colchão. Dormia bem só aqueles que estavam bem acomodados numa cama. Mas ninguém reclamava não. Tudo era diversão. Estar junto da parentada era realmente uma festa.

Muito bom mesmo era o período da tarde, quando a garotada, ou melhor, a primaiada toda saía no quintal para brincar. Aí é que era diversão: pega-pega, esconde-esconde, pula-corda, subir em árvores, jogar bola, andar de bicicleta, jogar bolita (ou bola de gude ou burquinha).

O dia era pouco para tantas brincadeiras.

Além disso, tinha o riacho ou sanga, como nós chamávamos. Era o lugar mais maravilhoso do mundo.

Lá todo mundo amava brincar. A liberdade era total. Era gente pulando, nadando, gritando, uns sabiam nadar, outros não. Quem sabia nadar ia até o fundão. Quem não sabia só ficava onde era rasinho. Mas ninguém ficava fora d'água, porque não tinha coisa melhor do que aquilo.

E o melhor vinha à noite, quando todo mundo se sentava na sala, ao redor dos tios, que adoravam contar causos que botavam medo na gente. Era história de lobisomem, fantasma, assombração. Quem é que conseguia dormir depois? Mas os mais velhos mandavam e tínhamos de obedecer.

Maravilhoso era o tempo de antigamente!

(Neiva Guarienti Pagno)