A Lenda do Minhocão conto volume 04

01/04/2021

Escritora Leni Zilioto de Lucas do Rio Verde-MT

Seu Valtenir é o melhor tocador de viola de cocho que já existiu na baixada cuiabana, em Mato Grosso. Ele também é um exímio pescador.

Conversei uma vez com o Seu Valtenir e ele me contou que o Rio Cuiabá é um arrombado que o minhocão fez a partir de um pequeno córrego. Disse que o minhocão vai fuçando na barranca do rio e vai batendo, assim: tum, tum, tum. Dali a pouco você escuta: shuááááá!!! E tudo vai embora pelo rio: árvores, barranca e até a casa dos ribeirinhos. Cai tudo, até mesmo árvore com raiz profunda. Já desmoronou praia, mata, tudo o que estava na beira do rio, por isso foi alargando.

Na comunidade Laranjeirinha, em Cuiabá, o minhocão destruiu até mesmo uma barranca de argila, dura, tipo pedra. Derrubou tudo, até as casas. Só não derrubou a casa da dona Adelaide, porque ela é muito religiosa e se ajoelhou e implorou para Jesus e para Santa Rosa não deixarem o minhocão derrubar a casa dela. Quando o minhocão parou, Dona Adelaide pegou as crianças, seus filhos, entrou na chalana e se mudou para perto do seu pai, que ficava mais no meio da mata.

Outra história que contam sobre o minhocão é que ele foi investigado pelo autor do Sítio do Pica-pau Amarelo, o Monteiro Lobato. Dizem que ele esteve em Cuiabá e achou que o movimento das águas deveria ser resultado do gás dos poços de petróleo que havia no fundo do rio, que faziam com que as águas se movimentassem. No entanto, Monteiro, descobrindo que não há petróleo no fundo do rio, tratou de encerrar sua pesquisa, pois deve ter ficado com medo de dar de cara com o minhocão.

Ao que parece, quem consegue enxergar a criatura, passa a ser perseguido por ela. Deve ter sido por isso que o famoso escritor saiu de fininho, né? Perguntei para Seu Valtenir se ele viu o minhocão, e ele respondeu: Você acha que eu sou bobo de ser perseguido pelo monstro? Na verdade, eu vi sim, mas ele não viu que eu o vi.

Segundo Seu Valtenir, o minhocão é um tipo de cobra gigante, capaz de sugar o sangue de uma pessoa em poucos segundos, e vive no fundo do rio entre o Pantanal e a Baixada Cuiabana. É uma espécie de minhoca comprida, grossa, peluda e com focinho igual ao de um porco. Um monstro assustador que vira canoas, devora pescadores, levanta grandes ondas e destrói a barranca do rio quando fica furioso. E sabe quando o minhocão fica furioso? Quando as pessoas jogam latas, vidros e cabeças de porco no rio. Então ele cava buracos fundos, fazendo com que tudo que está nas margens do rio caia e vá embora pela correnteza.

Arrisquei dizer a Seu Valtenir que gostei do minhocão, porque ele fica furioso quando as pessoas poluem o rio. Então, se querem preservar a mata e a casa dos ribeirinhos, é só não provocar o minhocão, ou seja, não poluir o rio Cuiabá! O pescador e tocador de viola de cocho ficou pensativo por alguns instantes, e depois continuou falando sobre o minhocão. Ele me contou ainda que o monstro sempre aparece em noite de lua cheia e provoca um grande movimento dos peixes no leito do rio.

Apesar de todo pavor provocado pelo minhocão, dizem que atualmente ele está sob controle. O que acontece é que os pescadores e os ribeirinhos não aguentavam mais viver com medo da criatura, então foram pedir ajuda a Nossa Senhora, que atendeu ao pedido, amarrando a grande cobra com três fios de seu cabelo embaixo da igreja matriz de Cuiabá. Por isso, a igreja não pode ser reformada, para não soltar os fios que amarram a fera. Porém, mesmo sem reformar a igreja por tanto tempo, Seu Valtenir disse que dois fios já soltaram; só tem mais um fio segurando o minhocão.

Vejam o perigo que a população de Cuiabá está correndo!

Para terem ideia do tamanho do minhocão, Seu Valtenir disse que um dia precisou atravessar o rio para buscar capim para o gado. Caminhou até o outro lado do rio sobre o que parecia ser um tronco de árvore. No outro dia, quando voltou para buscar mais capim, a travessia não estava mais ali. Foi então que percebeu que tinha andado sobre o minhocão.

História de pescador ou não, o tenebroso minhocão é uma lenda que segue viva na memória e no coração dos cuiabanos.

Será que é mistura de serpente com minhoca? E o focinho de porco? E o minhocão de Cáceres, que habita o Rio Paraguai, será que é o mesmo?

Por falar nele, eu ouvi dizer que o minhocão de Cáceres vivia nos arredores de uma usina de açúcar e álcool e que atacava animais que sumiam e depois apareciam estraçalhados.

O dono da usina não sabia mais o que fazer e foi pedir ajuda ao padre, que benzeu toda a região. Um pouco da água benta respingou na serpente e fez com que ela se refugiasse para dentro do rio Paraguai, e foi cavando um buraco no fundo do rio até chegar embaixo da igreja matriz de Cáceres, que estava sendo construída, e lá se acomodou.

No dia da inauguração da igreja, com o barulho das pessoas, a cobra se assustou e se mexeu. Com esse movimento da cobra, o teto e algumas paredes da igreja caíram, e algumas pessoas ficaram machucadas. Com medo, os fiéis pediram ajuda para Nossa Senhora, que tirou três fios do cabelo dela e prendeu a serpente, amarrando um fio na parte da frente do minhocão, outro na cauda e outro bem no meio do corpo, e a serpente ficou presa. Parece que em Cáceres também dois fios já soltaram, restando apenas um fio segurando o minhocão da cidade.

A distância entre Cuiabá e Cáceres é de 175 km em linha reta, e os dois rios, Cuiabá e Paraguai, se encontram onde termina o estado de Mato Grosso.

Será que é o mesmo minhocão?

Como pode estar amarrado em duas igrejas?

Ai eu já não sei! Será que algum pescador sabe responder?